domingo, 21 de novembro de 2010

Minha borboleta, minha papoula, meu amorzinho.

Já faz algum tempo que postei alguma coisa nesse blog, eu andei pensando seriamente em exclui-lo, mais acabei pensando melhor e resolvi deixar ele "vivo" por mais algum tempo. Acabei de ler esse texto e gostei muito, espero que compartilhem do mesmo.



"Por aqui tudo bem. Faz frio, mas isso é bom para a literatura. Tenho escrito sem parar para adiantar as coisas e poder ir aí te visitar e na luz do sol repetir que te amo. Enquanto não chego aí, enquanto meus beijos e até lágrimas não substituem as palavras, enquanto meu espanto diante da tua beleza não me turva a lógica, permita que eu te fale, anjinho meu, sobre o tempo e o amor, e sobre o tempo do amor.

Este teu companheiro apaixonado tem 74 anos. Portanto 55 anos a mais que você. Uma diferença considerável, levando em conta a vida humana, porém insignificante para o tempo destas estrelas que me assistem neste momento escrevendo este e-mail. Não sou um velho, a velhice é para os outros. Como estou apaixonado, sou mais que jovem. Eterno. Olho no espelho e vejo um tipo decrépito escrevendo no computador que certamente não sou eu. É uma projeção enganadora da minha doentia imaginação. Eu sou jovem, por ti removeria montanhas. Mesmo que não tivesse fé, por ti eu saltaria no abismo mesmo que não tivesse asas. As asas do amor que me fazem voar sempre, como agora, na tua direção. Em círculos concêntricos sobre a minha jovem amada. A relação de um homem velho com uma garota, ao contrário do que pensam os anciãos na sala de espera da morte, é uma das ligações mais fecundas e agradáveis que esse mundo oferece. Eu sei de tudo, posso te dar aulas interessantíssimas durante anos seguidos. Você rirá com elas, outras vezes de cara séria, usufruindo do meu saber para seu próprio conhecimento. Você beberá das minhas palavras com uma fruição próxima da sensualidade. Choraremos juntos a humanidade ao ler García Lorca, Dostoievski, Nietzsche, Camus ou Saramago. Te ensinarei a cantar velhas canções. Estarei ao seu lado como se fosse pela primeira vez. Escrevo porém para dizer-te que esta extrema felicidade que será vivida por nós dois apenas se compara ao sofrimento que eu te causarei alguns momentos mais tarde. Sou um velho, tenho muitas limitações físicas, meu corpo é bem diferente do seu. É lento, esqueceu a agilidade. E você terá o desejo da viagem, da aventura, sem poder satisfazê-los ao meu lado posto que eu não terei forças. Claro que em meio a estes dissabores, viveremos momentos esplêndidos de vinhos, rosas e sexo, foi Deus quem fez as pílulas azuis. Desafio o jovem mais valente a ser mais forte no amor do que eu. O amor sempre foi meu escudo e minha espada, é nele que sou forte. Esse amor que coloquei a teus pés eternamente.

Claro também que morrerei num dia próximo deixando você sozinha. Nada poderá te consolar disso, meu grande amor. Nem os filhos, posto que não os teremos. Então por isso nosso valioso amor é ao mesmo tempo crepúsculo e amanhecer, terror e glória, material de que é feita a vida. Nem por isso devemos negá-lo e não reconhecer sua beleza. Se eu tivesse o mundo dentro de mim, eu ficaria cego quando abrisse os olhos.

Mas certamente este e-mail seja desnecessário, você já pensou tudo isso. E um grande amor nos foi dado e deve ser vivido. E faz esvanecer toda palavra ou raciocínio. Você também sabe tudo de coisas que eu não saberei nunca, a menos que você me conte. O corpo é a alma. E seu corpo divino contém mais lições que todos os livros que eu tenha lido. Não ouçamos as dissonâncias que vêm de fora contra o nosso amor. Ouçamos somente a harmonia, o desejo, a transcendência desta paixão. O amor é um efeito colateral do sexo. Tudo é sexo, menos a paixão. Quando meu velho enrugado corpo unir-se ao teu glorioso, radiante e fértil como uma maçã, seremos uma coisa só feita de generosidade e prazer.

Termino agora este e-mail meditando que amar é querer o bem do outro. Posto que menos tempo me resta, eu não deveria te amar. Mas o amor está acima do tempo. O amor é o tempo, o tempo do amor."


Domingos Oliveira.

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